Racionalidades governamentais e processos bioecológicos na segurança pública brasileira
entre o controle e a cidadania
DOI:
https://doi.org/10.36776/ribsp.v9i23.341Palavras-chave:
Segurança pública, Governamentalidade, Prevenção da violência, Desenvolvimento humanoResumo
O artigo analisa a segurança pública brasileira como campo marcado por tensões permanentes entre estratégias repressivas e iniciativas fundamentadas em direitos e cidadania, evidenciado pelas elevadas taxas de violência letal e pela expansão do encarceramento. Para compreender esse cenário, parte-se de três paradigmas históricos — Segurança Nacional, Segurança Pública e Segurança Cidadã — que coexistem e disputam sentidos no cotidiano institucional. O objetivo geral consiste em investigar a segurança pública como fenômeno multidimensional, atravessado por disputas políticas, sociais e institucionais. Especificamente, busca-se: a) examinar como racionalidades governamentais regem o controle e a formação de sujeitos em diferentes esferas cotidianas; e b) articular a perspectiva foucaultiana de Governamentalidade à Teoria Bioecológica de Bronfenbrenner, contemplando desde interações individuais até condicionantes históricos e culturais. A originalidade reside na integração entre Governamentalidade e Teoria Bioecológica do Desenvolvimento Humano, demonstrando como decisões e valores do macrossistema reverberam nos níveis exo, meso e micro, afetando rotinas comunitárias e trajetórias individuais ao longo do tempo. Metodologicamente, trata-se de um ensaio analítico-crítico de natureza qualitativa, sustentado em revisão integrativa da literatura e análise temática de obras-chave. Os resultados indicam que a articulação entre Governamentalidade e Bioecologia constitui via promissora para formular políticas de segurança mais democráticas, inclusivas e sensíveis às múltiplas dimensões do desenvolvimento humano.
Referências
ANDRADE, Daniel Pereira. O legado de Foucault.Sociologias, Porto Alegre, ano 12, n. 23, p. 428–437, jan./abr. 2010.
BADOUARD, Romain; MABI, Clément; SIRE, Guillaume. Beyond “Points of Control”: logics of digital governmentality. Internet Policy Review, v. 5, n. 3, 2016.
BARRETO, André de Carvalho. Paradigma sistêmico no desenvolvimento humano e familiar: a teoria bioecológica de UrieBronfenbrenner. Psicologia em Revista (Belo Horizonte), v. 22, n. 2, p. 275–293, maio/ago. 2016.
BARRICHELLO, Eugenia Maria Mariano da Rocha; MOREIRA, Elizabeth Huber. A análise da vigilância de Foucault e sua aplicação na sociedade contemporânea: estudo de aspectos da vigilância e sua relação com as novas tecnologias de comunicação. Intexto, p. 64–75, 2015.
BRASIL. Constituição (1988). Constituição da República Federativa do Brasil. Brasília, DF: Presidência da República, 1988.
BRONFENBRENNER, Urie. A ecologia do desenvolvimento humano: experimentos naturais e planejados. Porto Alegre: Artes Médicas, 1996.
BRONFENBRENNER, Urie. Bioecologia do desenvolvimento humano: tornando os seres humanos mais humanos. Porto Alegre: Artmed, 2011.
BRONFENBRENNER, Urie. Making human beings human: bioecological perspectives on human development. Thousand Oaks: SagePublications, 2004.
CERQUEIRA, Daniel; BUENO, Samira (coord.). Atlas da Violência 2025. Brasília: Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada; Fórum Brasileiro de Segurança Pública, 2025.
DEMO, Pedro. Metodologia do conhecimento científico. São Paulo: Atlas, 2000.
FBSP. Fórum Brasileiro de Segurança Pública. 19º Anuário Brasileiro de Segurança Pública. São Paulo: Fórum Brasileiro de Segurança Pública, 2025. Disponível em: https://publicacoes.forumseguranca.org.br/handle/123456789/279. Acesso em: 18 out. 2025.
FBSP. Fórum Brasileiro de Segurança Pública. 3º Anuário Brasileiro de Segurança Pública. São Paulo: Fórum Brasileiro de Segurança Pública, 2009. Disponível em: https://publicacoes.forumseguranca.org.br/items/1f8900da-7ec1-4ed3-a177-21589aed0a0b. Acesso em: 1 nov. 2025.
FELTRAN, Gabriel de Santis. Fronteiras de tensão: política e violência nas periferias de São Paulo. São Paulo: Editora Unesp/CEM, 2011.
FLYNN, Kalen; MATHIAS, Brenda. “How Am I Supposed to Act?”: Adapting Bronfenbrenner’s Ecological Systems Theory to Understand the Developmental Impacts of Multiple Forms of Violence. Journal of Adolescent Research, v. 40, n. 1, p. 192–225, 2023.
FONSECA, Jeferson A.; PEREIRA, Luciano Z.; GONÇALVES, Carlos A. Retórica na construção de realidades na segurança pública: abordagens dos sistemas de Minas Gerais e São Paulo. Revista de Administração Pública, Rio de Janeiro, v. 49, n. 2, p. 395-422, mar./abr. 2015. DOI: http://dx.doi.org/10.1590/0034-7612127741. Acesso em: 01 nov. 2025.
FOUCAULT, Michel. A arqueologia do saber. Tradução de Luiz Felipe Baeta Neves. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 1977. 236 p. Título original: L’archéologie du savoir. Disponível em: https://monoskop.org/images/d/d0/Foucault_Michel_A_Arqueologia_do_Saber_7th_ed.pdf. Acesso em: 01 nov. 2025.
FOUCAULT, Michel. A hermenêutica do sujeito: curso dado no Collège de France (1981-1982). São Paulo: Martins Fontes, 2004. Disponível em: https://archive.org/details/a-hermeneutica-do-sujeito-michel-foucault/A%20Hermen%C3%AAutica%20do%20Sujeito%20-%20Curso%20dado%20no%
Coll%C3%A8ge%20de%20France%20%281981-1982%29.%20Michael%20Foucalt%20%5Barquiv
%C3%A1vel%5D/mode/2up. Acesso em: 01 nov. 2025.
FOUCAULT, Michel. Microfísica do poder. Organização e tradução de Roberto Machado. 8. ed. Rio de Janeiro: Graal, 1979. Disponível em: https://www.nodo50.org/insurgentes/
biblioteca/A_Microfisica_do_Poder_-_Michel_Foulcault.pdf. Acesso em: 01 de Nov.2025.
FOUCAULT, Michel. Nascimento da biopolítica: curso dado no Collège de France (1978–1979). Tradução de Eduardo Brandão. São Paulo: Martins Fontes, 2008a.
FOUCAULT, Michel. Segurança, território, população: curso dado no Collège de France (1977–1978). São Paulo: Martins Fontes, 2008b.
FOUCAULT, Michel. Vigiar e punir: nascimento da prisão. Tradução de Raquel Ramalhete. Petrópolis: Vozes, 1987. 288 p. Título original: Surveiller et punir. Disponível em: https://professor.pucgoias.edu.br/SiteDocente/admin/arquivosUpload/17637/material/Foucault_Vigiar%20e%20punir%20I%20e%20II.pdf. Acesso em: 01 de Nov.2025.
FREIRE, Moema Dutra. Paradigmas de segurança no Brasil: da ditadura aos nossos dias. Revista Brasileira de Segurança Pública, v. 3, n. 2, p. 100-114, 2009.
GARLAND, David. The Culture of Control: Crime and Social Order in Contemporary Society.Chicago: Universityof Chicago Press, 2001.
GIL, Antonio Carlos. Métodos e técnicas de pesquisa social. 6. ed. São Paulo: Atlas, 2008.
HAN, Byung-Chul. A sociedade da transparência. Tradução de Enio Paulo Giachini. Petrópolis: Vozes, 2015.
IPEA. Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada; FBSP. Fórum Brasileiro de Segurança Pública. Atlas da Violência 2024. Brasília: Ipea/FBSP, 2024.
KOPITTKE, Alberto LieblingWinogron; RAMOS, Marília Patta. O que funciona e o que não funciona para reduzir homicídios no Brasil: uma revisão sistemática.Revista de Administração Pública, v. 55, n. 2, p. 414-437, mar./abr. 2021.
KUHN, Thomas Samuel. A estrutura das revoluções científicas. 3. ed. São Paulo: Perspectiva, 1998. Obra original publicada em 1962.
LEITE, Márcia Pereira. Entre a “guerra” e a “paz”: Unidades de Polícia Pacificadora e gestão dos territórios de favela no Rio de Janeiro. Dilemas: Revista de Estudos de Conflito e Controle Social, Rio de Janeiro, v. 7, n. 4, p. 625–642, 2014.
MANSO, Bruno Paes; DIAS, Camila Caldeira Nunes. A guerra: a ascensão do PCC e o mundo do crime no Brasil. São Paulo: Todavia, 2018.
MANSO, Bruno Paes; DIAS, Camila Caldeira Nunes. PCC, sistema prisional e gestão do novo mundo do crime no Brasil. Revista Brasileira de Segurança Pública, São Paulo, v. 11, n. 2, p. 10-29, 2017. DOI: https://doi.org/10.31060/rbsp.2017.v11.n2.854. Acesso em: 8 out. 2025.
MORENO, Franklin; BOXER, Paulo. Advancing a transnational ecological systems framework for research on exposure to violence. Developmental Review, v. 76, 101200, 2025.
MOUHSSINE, Soufiane; SEFFAR, Karim. La gouvernementalitéalgorithmique: un nouveau paradigmepourlathéoriedessourcesdudroit. Revue de l’IntelligenceArtificielle et dudéveloppement territorial durable, v. 2, n. 01, 2025.
NUNES, Carlos Francisco Oliveira et al. Segurança Cidadã – Paradigmas e ocupação territorial no Brasil.Revista Brasileira de Ciências Policiais, Brasília, v. 14, n. 12, p. 217-251, maio/ago. 2023.
PIERSON, Paul. Increasing returns, path dependence, and the study of politics. American Political Science Review, v. 94, n. 2, p. 251-267, 2000.
PIRES, Duarte Raab. Governança em segurança pública: mecanismos de liderança, estratégia e controle na Polícia Rodoviária Federal. 2016. Dissertação (Mestrado em Administração) - Universidade Federal de Pernambuco, Recife, 2016. Disponível em: https://repositorio.ufpe.br/handle/123456789
/24384. Acesso em: 9 out. 2025.
SENAPPEN. Secretaria Nacional de Políticas Penais. RELIPEN – Relatório do 2º Semestre de 2024. Brasília: SENAPPEN, 2024.
SEVERINO, Antônio Joaquim. Metodologia do trabalho científico. 23. ed. São Paulo: Cortez, 2007.
SOARES, Luiz Eduardo. Desmilitarizar: segurança pública e direitos humanos. São Paulo: Boitempo, 2019.
SOARES, Luiz Eduardo. Meu casaco de general: 500 dias no front da segurança pública do Rio de Janeiro.São Paulo: Companhia das Letras, 2000.
UNODC – United Nations Office on Drugs and Crime. Global Study on Homicide 2023. Vienna: UNODC, 2023.
WACQUANT, Loïc. As prisões da miséria. Rio de Janeiro: Zahar, 2001.
Downloads
Publicado
Como Citar
Edição
Seção
Licença
Copyright (c) 2026 Janaina do Couto Mascarenhas, Andrea Kocchann Machado, Thiago Henrique Costa Silva

Este trabalho está licenciado sob uma licença Creative Commons Attribution-NonCommercial 4.0 International License.

